Neste triste momento da história da humanidade, muitas pessoas no Brasil e no mundo todo estão enfrentando uma pandemia massivamente noticiada pelos meios de comunicação causada pelo chamado coronavírus (COVID-19). É importante que os profissionais da saúde, pesquisadores e operadores de políticas públicas estejam alertas para a possibilidade deste vírus atingir particularmente pessoas que estão em vulnerabilidade social pelo uso de substâncias. Por atacar os pulmões, o coronavírus pode ser uma ameaça especialmente importante para quem fuma tabaco, maconha ou para quem utiliza outras drogas fumadas como o crack. Pessoas com transtorno por do uso de opióides (fumado principalmente) e transtorno por uso de crystal fumado (metanfetamina) também podem ser vulneráveis devido aos efeitos destas drogas à saúde respiratória e na função pulmonar.

Além disso, os indivíduos com transtornos por uso de substâncias têm maiores chances de experimentar falta de moradia, estar em situação de rua, vivendo em aglomerados como a Cracolândia de São Paulo, ou ainda de estarem em encarceramento do que os demais indivíduos da população em geral. Essas circunstâncias apresentam desafios únicos em relação à transmissão do vírus que causa a COVID-19. Como bem observado pela Dra. Nora Volkow, presidente do National Institute on Drug Abuse (NIDA) dos Estados Unidos recentemente: “todas essas possibilidades devem ser um foco de vigilância ativa enquanto trabalhamos para entender essa ameaça emergente à saúde”.

Acredita-se que o SARS-CoV-2, o vírus que causa a COVID-19, tenha ultrapassado a contaminação de espécies de outros mamíferos (provavelmente morcegos) para infectar seres humanos em Wuhan, capital da província chinesa de Hubei, no final de 2019. O vírus ataca o trato respiratório e parece ter uma taxa de mortalidade mais alta que a gripe sazonal. A taxa exata da mortandade ainda é desconhecida, pois depende do número de casos não diagnosticados e assintomáticos, e são necessárias análises adicionais para determinar esses números. Até agora, as mortes e doenças graves da COVID-19 parecem concentradas entre pessoas idosas e com problemas de saúde subjacentes, como diabetes, câncer, condições neurológicas e condições respiratórias. Portanto, é razoável se preocupar que a função pulmonar comprometida ou a doença pulmonar relacionada à história do tabagismo, do uso de maconha e ou do crack – como, por exemplo, a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) – , possam colocar as pessoas em risco de complicações graves da COVID-19.

Os dados têm mostrado que condições prévias, incluindo DPOC, doenças cardiovasculares e outras doenças respiratórias, pioram o prognóstico em pacientes com coronavírus que afetam o sistema respiratório. Embora os dados até o momento sejam preliminares, eles apontam para a necessidade de mais pesquisas para esclarecer o papel das doenças subjacentes e outros fatores na suscetibilidade à COVID-19 e seu curso clínico. Entre esses fatores, certamente está o uso de drogas fumadas.
Na China, 52,9% dos homens fumam, em contraste com apenas 2,4% das mulheres. Os dados emergentes da COVID-19 provenientes da China podem ajudar a determinar se essa disparidade está contribuindo para a maior mortalidade observada nos homens em comparação às mulheres. O uso de vaping (cigarros eletrônicos, narguilés) também pode prejudicar a saúde dos pulmões; ainda não se sabe se pode levar à DPOC, mas evidências recentes sugerem que a exposição a aerossóis de cigarros eletrônicos danifica as células do pulmão e diminui a capacidade de responder à infecção com aumento dos danos aos tecidos e a progressiva resposta inflamatória. No Brasil, há pelo menos 208 mil usuários de crack (que é fumado) segundo os dados mais recentes da FioCruz. A cracolândia paulista possui uma média diária de 1.680 frequentadores, com picos de 2.018 usuários no período da manhã. Isso significa dizer que todas essas pessoas são altamente vulneráveis à COVID -19 e podem ser potenciais focos de outras novas contaminações. E até onde se sabe, elas seguem com alta circulação e aglomeração em tempos de reclusão e sem uma resposta clara dos gestores para a sua proteção e a de terceiros.

Outros riscos para as pessoas com transtornos relacionados ao uso de substâncias incluem diminuição do acesso a cuidados de saúde, insegurança habitacional e maior probabilidade de encarceramento. O acesso limitado aos cuidados de saúde coloca as pessoas com dependência química em maior risco de muitas doenças, mas se hospitais e clínicas forem ampliados, pode ser que as pessoas com dependência – que já são estigmatizadas e não são atendidas pelo sistema de saúde – experimentem ainda mais barreiras ao tratamento da COVID-19. A falta de moradia ou o encarceramento pode expor as pessoas a ambientes onde elas estão em contato próximo com outras pessoas.

Sabemos ainda muito pouco sobre a COVID-19 e muito menos sobre sua interseção com a dependência química. Mas podemos supor que pessoas com saúde comprometida devido ao fumo ou vaping e pessoas que usam cannabis, crack e apresentam outros transtornos relacionados ao uso de substâncias podem estar em maior risco de apresentar a COVID-19 e suas complicações mais graves – por múltiplas razões fisiológicas e sociais / ambientais. Por isso, é muito importante que os gestores de saúde possam garantir que os pacientes usuários de crack e outras drogas não sejam discriminados se um aumento nos casos de COVID-19 colocar uma carga adicional em nosso já frágil sistema de saúde. Neste momento, tudo que não precisamos é de mais estigma, julgamentos adicionais e moralismos em relação aos dependentes. Esta guerra é de todos nós!

Alessandra Diehl

Alessandra Diehl

Psiquiatra, especialista em dependência química, vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD).

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