Autores: Felipe Ornell e Helena Moura
Texto originalmente publicado no site da CAAR/RS https://www.caars.org.br/saudemental-297-idoser–que-se-sabe-respeito-das-drogas-digitais

Nas últimas semanas uma nova “forma de utilização de drogas” tem sido noticiada pela mídia, não se trata de substâncias fumadas, ingeridas, inaladas ou injetadas, mas de drogas sonoras. As i-dosers, batidas binaurais ou drogas digitais são áudios, sons e ruídos de intensidade e frequência variada que supostamente são capazes de alteraras ondas cerebrais, afetando o estado emocional e cognitivo. O resultado hipotético, é a alteração do humor e da consciência, podendo gerar consequências semelhantes às induzidas por drogas de abuso (maconha, ansiolíticos, LSD, MDMA e cocaína, entre outras) ou alcançadas por meio da meditação profunda. Sonolência, relaxamento, descontração, euforia e experiências sensoriais psicodélicas são exemplos dos efeitos esperados.
O método por trás das i-dosers não chega a ser uma novidade, foi descoberto em 1839, por Heinrich Wilhelm Dove que identificou que efeitos sonoros constantes, tocados em frequências e intensidades diferentes em cada ouvido (por meio da utilização de fones de ouvido), fazem com que o ouvinte perceba o som de uma batida acelerada induzindo alterações nas ondas cerebrais. Esse fenômeno é chamado de “batida binaural” e tem sido usado experimentalmente no tratamento complementar de transtornos como o déficit de atenção e hiperatividade, ansiedade, dor, entre outras com resultados contraditórios. O uso recreativo, entretanto, ganhou impulso recentemente, com as redes sociais.

Recentemente, um estudo publicado na revista científica Drug and Alcohol Dependence revelou que o uso de i-dosers é frequente. Dos 30 mil indivíduos avaliados em 22 países, 5,3% usou i-dosers no último ano. Os principais usuários eram jovens e propensos a relatarem uso recente de outras drogas ilegais. Outro dado relevante é que o Brasil foi o terceiro país com maior prevalência de uso, atrás de Estados Unidos e México. Do ponto de vista legal, no Brasil, as I-dosers não são consideradas drogas, pois não estão listadas na Lei nº 11.343/2006 (que lista as substâncias entorpecentes).

Até o momento, não está claro se o uso de i-dosers é viciante, tampouco se ocasiona danos semelhantes às drogas de abuso. Há relatos sugerindo, inclusive, que os efeitos das drogas digitais não são decorrentes de alterações cerebrais propriamente ditas, mas da autossugestão (efeito placebo). Entretanto, o uso de i-dosers não está isento de riscos. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, ruídos altos, agudos e constantes podem gerar desde um estado de neurotização a lesões irreversíveis no aparelho auditivo, principalmente em crianças e adolescentes, que são mais vulneráveis. Se sabe que o nível de intensidade de ruído de fones de ouvido varia entre 60-70 decibéis e 110-120 decibéis. O nível seguro de ruído para crianças e adolescentes, é de 70 decibéis. Para tentar obter o efeito alucinógeno prometido, é provável que os sons sejam ouvidos em níveis de intensidade superiores à recomendada. Além disso, não se pode excluir a hipótese de que o uso de i-dosers pode estimular a curiosidade e a vontade de se utilizar drogas reais, então é importante manter a cautela.

Referências

Barratt, M. J., Maddox, A., Smith, N., Davis, J. L., Goold, L., Winstock, A. R., & Ferris, J. A. (2022). Who uses digital drugs? An international survey of ‘binaural beat’ consumers. Drug and alcohol review, 10.1111/dar.13464. Advance online publication. https://doi.org/10.1111/dar.13464

Chaieb, L., Wilpert, E. C., Reber, T. P., & Fell, J. (2015). Auditory beat stimulation and its effects on cognition and mood States. Frontiers in psychiatry, 6, 70. https://doi.org/10.3389/fpsyt.2015.00070

Sociedade Brasileira de Pediatria https://www.sbp.com.br/imprensa/detalhe/nid/pediatras-alertam-sobre-riscos-auditivos-pelo-uso-das-chamadas-drogas-digitais/

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