Por Alessandra Diehl

O consumo global de opioides tem aumentado dramaticamente e de forma desproporcional, principalmente, em países de alta renda como Estados Unidos da América e Canadá, por exemplo, promovendo graves consequências em termos de morbidade e mortalidade. Para se ter uma dimensão deste problema as overdoses mataram mais de 100 mil pessoas nos EUA num único ano. Dessas mortes, mais de 66% estavam ligadas ao fentanil, um opioide sintético 50 vezes mais poderoso que a heroína. Mas será que a “pandemia de opioides” vivenciada por países com renda mais alta também pode nos atingir aqui no Brasil?

Estudos prévios sobre o uso de substâncias no Brasil não se concentraram no uso indevido de opioides, anteriormente considerado quase que inexistente. Apesar de indicadores essenciais, os dados relacionados aos opioides seguem ainda limitados no nosso país.

No entanto, a Pesquisa Nacional sobre Uso de Substâncias de 2015 já evidenciava a prevalência não trivial do uso não médico de analgésicos opioides entre uma grande amostra probabilística no Brasil. As taxas se aproximaram daquelas de uso não médico nos EUA no início dos anos 2000, e muitas vezes ocorreram em combinação com álcool e benzodiazepínicos. Seguiu-se a um aumento de ∼500% nas vendas de farmácias de opioides de 2009 a 2015, conforme documentado pela ANVISA. Este aumento nas vendas de opiáceos não foi impulsionado pelo fentanil, mas sim pela codeína e por um rápido crescimento nas prescrições de oxicodona (quase ausente antes de 2010). Inquéritos nacionais indicam aumentos no uso não médico de opiáceos prescritos, embora inferiores aos observados na América do Norte, enquanto os opiáceos ilícitos (por exemplo, heroína) são altamente incomuns.

O uso de opioides prescritos para tratar a dor está associado a um risco aumentado de transtornos por uso de opioides e morte por overdose. Dados do primeiro estudo longitudinal de base populacional sobre envelhecimento no Brasil (ELSI-Brasil), 2019-2020 (idade média = 63,3; 54,4% mulheres) mostrou que a prevalência de dor (n = 9.234) foi de 36,9% e a prevalência de uso de opioides entre aqueles que relataram dor (n = 3.350) foi de 30%. A prevalência de uso de opioides foi maior entre indivíduos do sexo feminino e solteiros. Em modelos ajustados, artrite, dor crônica nas costas e presença de sintomas depressivos foram associados ao uso de opioides prescritos. A codeína continua sendo o principal analgésico opioide utilizado, mas opioides mais fortes, como a oxicodona, estão se tornando mais comuns. O uso de opioides prescritos foi relatado por uma parcela considerável dos idosos que sofrem de dor no Brasil.

Os dados mostram que o uso não médico de opioides no Brasil pode ser mais prevalente do que se reconhecia anteriormente. Assim como a vigilância do uso de opioides prescritos é fundamental para prevenir suas consequências prejudiciais. A medição e avaliação adequadas do uso indevido de opioides no Brasil e em outros países da América Latina são fundamentais para compreender e prevenir os danos relacionados aos opioides.

O Brasil implementou regulamentações restritivas à prescrição de opioides e é considerado “altamente restrito” para acesso aos mesmos e tem a oportunidade de olhar atentamente o que tem acontecido nos EUA e adotar algumas ações proativas como por exemplo: 1) investir em vigilância e pesquisa contínuas para compreender as mudanças nos padrões de uso e abuso de substâncias na população brasileira; 2) integrar as apreensões com análises toxicológicas cuidadosas, visando identificar o fentanil, seus precursores e diferentes misturas de fentanil com diferentes substâncias já prevalentes no país, como a cocaína; 3) melhorar a vigilância do fentanil medicinal e de outros opioides, permitindo que os pacientes tenham acesso a eles durante a ventilação artificial e o tratamento da dor intensa, mas evitando a falsa comercialização e o potencial desvio e uso indevido, especialmente em ambientes ambulatoriais.
Num contexto de consumo crescente de opiáceos prescritos, o uso indevido de opiáceos tem potencial para aumentar no futuro. Preocupante!

Referências

Lucas O Maia, Dimitri Daldegan-Bueno, Benedikt Fischer. Opioid use, regulation, and harms in Brazil: a comprehensive narrative overview of available data and indicators. Subst Abuse Treat Prev Policy. 2021 Jan 26;16(1):12. doi: 10.1186/s13011-021-00348-z.

Krawczyk N., Silva P.L.D.N., De Boni R.B. Non-medical use of opioid analgesics in contemporary Brazil: findings from the 2015 Brazilian national household survey on substance use. Global Publ Health. 2020;15:299–306.

Francisco I Bastos, Noa Krawczyk. Reports of rising use of fentanyl in contemporary Brazil is of concern, but a US-like crisis may still be averted. Lancet Reg Health Am. 2023 May 9:23:100507. doi: 10.1016/j.lana.2023.100507. eCollection 2023 Jul.

Pricila H Mullachery, Maria Fernanda Lima-Costa, Antônio Ignácio de Loyola Filho. Prevalence of pain and use of prescription opioids among older adults: results from the Brazilian Longitudinal Study of Aging (ELSI-Brazil). Lancet Reg Health Am. 2023 Mar 1:20:100459. doi: 0.1016/j.lana.2023.100459. eCollection 2023 Apr.

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